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'Extinção silenciosa' de presas pode levar onça-pintada a desaparecer da Mata Atlântica, aponta estudo

'Extinção silenciosa' de presas pode levar onça-pintada a desaparecer da Mata Atlântica Uma pesquisa conduzida por pesquisadores brasileiros apontou a rela...

'Extinção silenciosa' de presas pode levar onça-pintada a desaparecer da Mata Atlântica, aponta estudo
'Extinção silenciosa' de presas pode levar onça-pintada a desaparecer da Mata Atlântica, aponta estudo (Foto: Reprodução)

'Extinção silenciosa' de presas pode levar onça-pintada a desaparecer da Mata Atlântica Uma pesquisa conduzida por pesquisadores brasileiros apontou a relação entre a baixa disponbilidade de alimento e o baixo número de onças-pintadas existentes na Mata Atlântica - e os pesquisadores alertam que a onça pode desaparecer do bioma se a redução das espécies que servem de alimento continuar avançando. O levantamento revela um cenário de baixa abundância e baixa biomassa, ou seja, quantidade e peso reduzidos das presas que a onça prefere. Em várias áreas estudadas, a média ficou abaixo de cinco indivíduos por espécie, por ponto monitorado. Isso significa que, em cada área analisada, havia números baixos de animais para sustentar um predador grande ao longo do tempo. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Piracicaba no WhatsApp O estudo, coordenado pela professora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) de Piracicaba (SP), Kátia Maria Paschoaletto Micchi de Barros Ferraz, foi publicado na revista Global Ecology and Conservation. Para a pesquisadora, o desaparecimento lento e contínuo dos animais que compõem a base alimentar do felino configura uma “extinção silenciosa das presas”. "Se nada for feito, nós seremos o primeiro bioma do mundo a ter um predador de topo de cadeia, que no caso é a onça-pintada, extinto. Perdê-la seria uma tragédia ambiental de proporções sem tamanho", afirmou. 🐆 A possibilidade de extinção da onça-pintada na Mata Atlântica já havia sido apontada em 2013, quando pesquisadores identificaram o declínio da população da espécie no bioma. 🔎 Como foi feita a pesquisa? O levantamento analisou nove áreas protegidas da Mata Atlântica, incluindo parques nacionais, parques estaduais e uma área de proteção ambiental. Parque Nacional do Iguaçu (PNI) Parque Nacional do Guaricana (PNG) Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (PETAR) Parque Estadual Carlos Botelho (PECB) Legado das Águas - Reserva Votorantim (LA) Núcleo Itariru do Parque Estadual da Serra do Mar (NITA) Núcleo Santa Virgínia do Parque Estadual da Serra do Mar (NSV) Estação Ecológica do Bananal (EBB) Área de Proteção Ambiental São Francisco Xavier (APA-SFX) Armadilha fotográfica usada em pesquisa que apontou a possibilidade de que onças-pintadas sejam estintas por escassez de alimento Projeto Onças do Iguaçu Antes do trabalho de campo, os pesquisadores fizeram uma revisão de estudos publicados entre 1983 e 2025 sobre a dieta da onça. Eles analisaram 719 amostras e identificaram 36 itens alimentares. A partir daí, selecionaram 14 espécies de mamíferos que formam a base alimentar do felino na Mata Atlântica, como catetos, queixadas, cervídeos, antas e pacas. Depois, os pesquisadores instalaram câmeras automáticas em 496 pontos, com duas armadilhas em cada, distribuídos em grade com 1 km de distância entre si. As câmeras ficaram ligadas 24 horas por dia por cerca de 30 dias em cada área. A partir desses registros, os pesquisadores utilizaram modelos matemáticos para calcular a média de animais em cada área e o peso total de biomassa que representam para a alimentação das onças.O método considerou fatores como a frequência das detecções e as características do ambiente em cada ponto. 📌 O que o estudo observou? O levantamento mostrou que, em quase todas as áreas analisadas, existem poucos animais das 14 espécies de mamíferos que compõem a base alimentar da onça-pintada. Em várias regiões, a média ficou abaixo de cinco animais por espécie. 👉 A “média de indivíduos” representa a quantidade aproximada de animais de uma espécie por ponto monitorado. Se a média é de 4 indivíduos, por exemplo, isso quer dizer que, a cada área amostrada, foi estimada a existência de 4 catetos, 4 cervídeos ou 4 pacas — números muito baixos para alimentar um predador grande como a onça. Em várias regiões estudadas, a biomassa somada de todas as espécies ficou abaixo de 100 kg. Isso indica que falta alimento suficiente para sustentar populações de onça-pintada a longo prazo. O Parque Nacional do Iguaçu foi a única área com números elevados: 27,3 indivíduos em média, somando todas as espécies avaliadas 638 kg de biomassa, a maior de todas as regiões monitoradas É também onde se concentra a maior população de onças da Mata Atlântica. Ferraz afirmou que a área mantém uma base relativamente saudável de presas, como veados, porcos-do-mato, capivaras e cutias. “Esse tipo de área é extremamente raro na Mata Atlântica. Cerca de 85% do habitat original da onça no bioma já foi perdido, e a espécie hoje ocupa apenas uma pequena fração do que resta, com populações muito pequenas e isoladas”, disse a pesquisadora. Já as áreas com menos animais disponíveis são justamente as que não registram onças ou que têm apenas poucos indivíduos. Isso confirma a ligação direta entre a falta de alimento e o desaparecimento do predador no bioma, de acordo com os pesquisadores. "A onça vai se aproveitando de algumas outras presas que estão ali, porque ela pode comer qualquer presa, qualquer animal. Mas ela teria que comer muito mais animais menores do que se ela conseguisse caçar um animal grande. Se não tem presas preferenciais num tamanho suficiente para sustentar essas populações de onça, elas começam a entrar num processo de declínio acentuado", afirmou Ferraz. A pesquisa também observou que locais de mais fácil acesso apresentaram menos mamíferos de médio e grande porte. Já áreas mais isoladas, com difícil acesso, concentraram mais população de presas e maior biomassa total, indicando o impacto da pressão humana para esses animais. 🐆 E qual é a quantidade de onças? Onça-pintada em flagrante de armadilha fotográfica Projeto Onças do Iguaçu O estudo não faz uma nova contagem, mas reúne estimativas recentes da literatura científica: Parque Nacional do Iguaçu: cerca de 25 onças registradas Corredor Verde, onde está o Parque Nacional do Iguaçu: aproximadamente 93 onças, podendo variar entre 72 e 122 indivíduos Serra do Mar: menos de 50 onças em toda a região Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira e Parque Estadual Carlos Botelho: entre 4 e 8 onças em cada Serra do Mar Norte: presença confirmada de poucos indivíduos, mas sem número exato Estação Ecológica do Bananal (EEB) e APA de São Francisco Xavier (APA‑SFX): não há registro atual de onças nessas áreas O que explica a queda de mamíferos? Cervídeos e porcos-do-mato estão entre as presas preferenciais da onça-pintada Projeto Onças do Iguaçu Na avaliação da especialista, muitas unidades de conservação carecem de fiscalização por falta de efetivo e de planejamento de gestão para controlar e combater ameaças. A cultura histórica da caça e a ausência de alternativas socioeconômicas também contribuem para a redução das presas. Ao explicar por que áreas próximas a centros urbanos, como a Serra do Mar, apresentam situação mais crítica que o Corredor Verde do Iguaçu, Ferraz afirmou que essas regiões podem ter sido mais impactadas pela ocupação humana. “Áreas com maior facilidade de acesso de pessoas são áreas com maior pressão de caça, resultando em menor disponibilidade de presas para a onça”, analisou. Ela ressaltou que reforçar a fiscalização é o primeiro passo para evitar a extinção da onça-pintada. Também é necessário cuidar das unidades de conservação, controlar as ameaças antes de avançar em ações de refaunação e contar com o engajamento dos moradores locais nesse processo. Impactos A pesquisadora destacou que o desaparecimento de um predador de topo da cadeia alimentar causaria impactos em todo o ecossistema por meio de um efeito cascata. Com menos onças, aumentariam as populações de suas presas, geralmente herbívoras, o que poderia alterar a composição e a estrutura da vegetação. "Essa bagunça no ecossistema pode trazer efeitos imprevisíveis, como a perda de biodiversidade, alteração na composição do solo, aumento de espécies exóticas e até mesmo na liberação de patógenos, o que pode potencialmente afetar a saúde humana", avaliou. Ela explicou que outras espécies poderiam ocupar essa posição, mas a função ecológica da onça-pintada não seria restabelecida, já que se alimentam de presas maiores e em proporções diferentes. *Estagiária sob supervisão de Claudia Assencio e Yasmin Moscoski. VÍDEOS: tudo sobre Piracicaba e região Veja mais notícias da região no g1 Piracicaba

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