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Césio-137: Mãe de Leide das Neves, símbolo do acidente, desabafa após quase 40 anos do acidente: 'A gente revive tudo'
Após 30 anos, vítimas do acidente com césio-137 dizem sofrer com a falta de apoio médico
Após o lançamento de uma série que retrata a contaminação radi...
26/03/2026 04:02
Césio-137: Mãe de Leide das Neves, símbolo do acidente, desabafa após quase 40 anos do acidente: 'A gente revive tudo' (Foto: Reprodução)
Após 30 anos, vítimas do acidente com césio-137 dizem sofrer com a falta de apoio médico
Após o lançamento de uma série que retrata a contaminação radiológica e os esforços para conter a tragédia do Césio-137, o acidente radiológico que abalou o Brasil há quase quarenta anos, a mãe de Leide das Neves Ferreira, a menina que aos 6 anos se tornou o símbolo da tragédia e morreu após ingerir o material radioativo, desabafou sobre a retratação da história de sua família.
“Sempre mexe um pouco com a gente, com a nossa saúde, a gente revive tudo”, lamentou Lourdes das Neves Ferreira, em entrevista ao g1.
CÉSIO-137: Veja página especial sobre o acidente radiológico
Aos 74 anos, Lourdes precisou encarar novamente a morte da filha sendo televisionada para o mundo. Na minissérie Emergência Radioativa, da Netflix, baseada em fatos reais, a mãe ganhou o nome de Catarina e a filha Leide passou a se chamar Celeste.
Apesar da dor de reviver a tragédia, ela destacou a importância de manter o assunto em evidência: “É um assunto que a gente não pode calar, não pode deixar cair no esquecimento”. Segundo Lourdes, a repercussão tem contribuído para dar visibilidade à realidade atual das vítimas. “O importante é a população saber como que as vítimas estão vivendo hoje. Agora que nós estamos precisando mesmo de ajuda, de um amparo”, disse.
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Lourdes também comentou sobre a expectativa em relação ao reajuste da pensão que recebe do governo do estado, que, segundo ela, está defasada há anos. Atualmente, a pensão e o auxílio federal são as suas únicas fontes de renda. “Só dependo do governo para sobreviver”, desabafou, ao explicar que problemas de saúde que a impedem de trabalhar. A idosa recebe R$ 954, mas parte do valor é comprometida com empréstimos, restando cerca de R$ 400 a R$ 500 para despesas básicas.
“Tenho que decidir se pago as despesas de casa ou se compro os remédios”, lamentou.
Atualmente, a idosa enfrenta uma série de problemas, como dores na coluna, pressão alta, colesterol elevado e complicações oftalmológicas. Para Lourdes, é muito difícil custear tratamentos e medicamentos.
Outro ponto de preocupação é o risco de perder a casa onde mora, que foi doada pelo governo, pois está com o IPTU atrasado por falta de recursos. O apelo de Lourdes é por melhores condições de vida. “Eu só quero ter um final de vida digno”, desabafou.
Recentemente, o Governo de Goiás apresentou um projeto para atualizar os valores pagos aos beneficiários que atuaram na descontaminação da área atingida, na vigilância do depósito provisório em Abadia de Goiás e no atendimento de saúde às vítimas diretas do acidente radioativo.
Segundo a proposta, os valores das pensões serão reajustados. Para os radiolesionados que tiveram contato direto com o Césio-137 ou que foram expostos a uma irradiação superior a 100 RAD, o benefício passará de R$ 1.908,00 para R$ 3.242,00. Já para os demais beneficiários, o valor será corrigido de R$ 954,00 para R$ 1.621,00.
Leide das Neves, 6 anos, foi a primeira vítima do césio-137, e se tornou símbolo da tragédia em Goiás
Reprodução / TV Anhanguera
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O que aconteceu com as vítimas do Césio-137?
Como estão os locais atingidos pelo Césio-137?
Relembre o acidente
O acidente radioativo teve início em 13 de setembro de 1987, quando Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves retiraram um aparelho de radioterapia abandonado nas ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Eles levaram a peça para a casa de Roberto, na Rua 57, onde removeram o lacre da cápsula que continha césio-137 na forma de pó, semelhante ao sal de cozinha, mas que emitia um intenso brilho azul no escuro.
Imagens da tragédia do Césio 137
Reprodução/ TV Anhanguera
Em 18 de setembro, a peça foi vendida para Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho, que ficou encantado com a luminosidade e distribuiu fragmentos da substância para familiares e amigos. Sem saber do perigo, as pessoas manipulavam o material, o que causou sintomas imediatos como náuseas, tonturas, vômitos e diarreia.
A suspeita de que o pó era o culpado surgiu com Maria Gabriela, esposa de Devair, que em 28 de setembro levou a cápsula em uma sacola de plástico até a Vigilância Sanitária.
O acidente foi oficialmente identificado no dia seguinte, 29 de setembro, pelo físico Walter Mendes, que confirmou os altos níveis de radiação e iniciou o isolamento das áreas afetadas.
Embora nos dados oficiais constam apenas quatro mortes diretas devido ao acidente radiológico, os reflexos da tragédia são inúmeros. Os nomes de Leide das Neves, Maria Gabriela, Israel e Admilson representam os sobreviventes que carregaram na pele as marcas do acidente.
Atualmente, mais de mil pessoas ainda frequentam o Centro de Assistência ao Radioacidentado (Cara), órgão criado em 2011 para prestar apoio à população afetada pelo material radioativo.
Equipamento de radiologia onde foi encontrada a cápsula do Césio-137
Divulgação/Cnen
Quem são as vítimas?
Milhares de pessoas foram avaliadas na época do acidente com césio-137
Reprodução/Cara
De acordo com informações divulgadas pelo Governo de Goiás, na época, um monitoramento realizado no Estádio Olímpico avaliou mais de 112.800 pessoas, das quais 249 apresentaram algum grau de contaminação e 129 necessitaram de acompanhamento médico permanente.
O acidente resultou em quatro vítimas fatais diretas, que faleceram entre quatro e cinco semanas após a exposição devido à Síndrome Aguda da Radiação (SAR):
Leide das Neves Ferreira: Um dos símbolos da tragédia, a menina de apenas 6 anos era filha de Ivo Ferreira, e foi a pessoa mais afetada por ter brincado com o pó e ingerido partículas. A criança morreu em 23 de outubro de 1987 e foi enterrada em um caixão de chumbo de 700 quilos para conter a radiação.
Maria Gabriela Ferreira: Esposa de Devair e a pessoa responsável por evitar que a contaminação fosse ainda maior, ela adoeceu três dias após o contato e faleceu na mesma data que Leide, em 23 de outubro, aos 37 anos.
Israel Batista dos Santos: Jovem de 20 anos era funcionário de Devair e trabalhou na remoção do chumbo da fonte. Ele faleceu em 27 de outubro.
Admilson Alves de Souza: Aos 18 anos, ele também era um funcionário do ferro-velho, que manipulou a fonte radioativa e morreu em 28 de outubro.
Outras pessoas que estiveram envolvidas no acidente sobreviveram ao impacto imediato, mas carregaram marcas profundas:
Devair Alves Ferreira: O dono do ferro-velho faleceu sete anos após o acidente, aos 43 anos, por parada cardiorrespiratória.
Ivo Alves Ferreira: Pai de Leide, morreu 15 anos após o acidente por enfisema pulmonar, tendo sofrido por anos os efeitos da radiação.
Odesson Alves Ferreira: Irmão de Devair, sobreviveu à contaminação nas mãos e tornou-se um líder na luta pelos direitos das vítimas.
Roberto Santos: O catador de recicláveis foi uma das duas pessoas que encontraram a cápsula com o césio-137, que também sofreu com sequelas do acidente.
A tragédia gerou 6 mil toneladas de rejeitos radioativos, que estão armazenados de forma definitiva em depósitos em Abadia de Goiás. Atualmente, o Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA) continua monitorando a saúde das vítimas e de seus descendentes.
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